Elefantes à mesa

Empresários que se unem para formar um novo negócio. Como advogada, já tive experiência com vários começos de histórias como essa. Em reunião, um deles relata certo caminho e meu corpo diz: “hummm, já sei onde isso vai dar!”.
A conversa segue, faço certas perguntas técnicas para entender como redigir o acordo de sócios, e na segunda resposta observo minha mente dizer: “Isso é ingenuidade. Ele não está olhando mais adiante, como deveria!”
Dá certa vergonha de contar, mas a verdade é que também me vi descrente do potencial societário de um dos integrantes, por certo ar que julguei prepotente. Sem falar no meu desânimo em ouvir a fala de outro, que conheço há anos, porque meu ego dizia: “Nunca vi ele fazer o que diz, o famoso don´t walk the talk”.
Eu poderia seguir a reunião assim e, a partir desta lente, que alguns chamam de experiência, redigir um acordo com as camadas de proteção necessárias a todos os cenários criados por essa mente posicionada no “eu já sei”.
No entanto, a grande graça do www.direitocomalma.com é posicionar a mente no “não saber”.
O conhecimento técnico-jurídico pode ser a cereja do bolo ao final, mas, antes, os melhores temperos são a humildade, curiosidade, abertura, flexibilidade, disponibilidade e compaixão.

Para fazer isso, foi necessário (e continua sendo) muito mergulho no meu autoconhecimento. Caso contrário, como poderia observar o que meu corpo e mente diziam e decidir conscientemente o que fazer a respeito disso?
Minha escolha foi a de não seguir a partir de pré-conceitos e redação de um acordo com base no medo e proteção. Abri conscientemente minha escuta, tive curiosidade a respeito das camadas que poderiam estar debaixo de certas posturas, expus com compaixão e transparência os elefantes que me pareciam estar debaixo da mesa e convidei à responsabilidade de construção conjunta do contrato.
Afinal, acredito que o contrato não é somente o papel escrito, mas principalmente sua construção. Não me apetece mais fazer roteiro de novela. Tenho apostado no poder da conexão e intimidade para criar documentos que possam apoiar os negócios e as relações humanas a se autorregular, com criatividade e aspiração de paz.
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